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Como escrever mães complexas sem transformá-las em personagens tóxicas


Oi, pessoal.

Espero que estejam todos bem.

Domingo foi Dia das Mães e eu estava pensando em fazer um post temático, mas algo me incomodava bastante. É um assunto muito mais complexo do que conseguiríamos discutir completamente aqui (e provavelmente trarei em outros posts futuros), mas tenho percebido uma tendência cada vez mais forte na literatura e na escrita criativa: a ideia de que apenas personagens emocionalmente destrutivas, frias, abusivas ou completamente quebradas são “profundas” de verdade.

Quando falamos sobre figuras maternas na ficção, isso fica ainda mais evidente.

Parece que muitas histórias passaram a trabalhar quase sempre entre dois extremos: ou a mãe perfeita, quase angelical e sem falhas humanas reais, ou a mãe tóxica, ausente, cruel, manipuladora ou emocionalmente destrutiva. Isso quando ela sequer existe, porque em alguns gêneros as mães parecem perder automaticamente o direito de sobreviver ao capítulo um.

E veja: mães perfeitas realmente podem acabar se tornando personagens rasas. Mas mães amorosas também podem ser complexas, humanas e profundamente marcantes.

Uma personagem materna não precisa destruir emocionalmente os filhos para parecer real. Ela pode ter falhas, limitações, contradições, medos e conflitos internos sem se transformar em uma força antagônica constante na narrativa.

Aliás, talvez justamente por estarmos tão acostumados com relações familiares extremas na ficção, personagens maternas funcionais acabem se tornando ainda mais memoráveis quando aparecem bem construídas.

Então, se você quer escrever mães mais humanas, complexas e emocionalmente interessantes na literatura sem cair nem na idealização exagerada nem na toxicidade como único caminho possível, vamos conversar sobre isso.


A armadilha da “mãe perfeita”

A verdade é que personagens impecáveis (independente de quem sejam e qual função tenham) costumam parecer artificiais

A figura materna frequentemente é retratada como alguém sempre acolhedor, sábio, paciente e emocionalmente disponível, mas quando a personagem é retratada como alguém perfeita, dificilmente parece humana.

Quando a mãe da história existe apenas para oferecer conselhos prontos, preparar refeições simbólicas e apoiar emocionalmente o protagonista sem demonstrar desejos, frustrações ou conflitos próprios, ela corre o risco de funcionar mais como ferramenta narrativa do que como personagem.

E personagens planas raramente deixam impacto duradouro.

Isso não significa que mães gentis ou amorosas sejam automaticamente mal escritas porque, obviamente, problema não é a bondade. É a ausência de individualidade, de personalidade, de algo que a destaque.

Uma boa personagem materna precisa existir além da função de “mãe”.


Por que mães funcionais e amorosas também merecem espaço na literatura

Na tentativa de fugir do clichê da mãe perfeita, muitas histórias acabam indo direto para o extremo oposto: mães abusivas, negligentes, violentas, emocionalmente indisponíveis ou completamente ausentes.

Mas existe um espaço enorme entre esses dois polos — e que é justamente um dos mais interessantes de explorar na escrita, porque as mães podem ser humanas sem serem destrutivas.

Elas podem sentir raiva, culpa, cansaço, insegurança e frustração sem deixarem de amar profundamente seus filhos. Podem errar, perder a paciência, tomar decisões ruins e ainda assim serem fontes reais de afeto, estabilidade e acolhimento dentro da narrativa (exatamente como na vida real).

Aliás, relações familiares saudáveis também geram conflito e emoção, também transformam personagens e, às vezes, até mais que as negativas porque existe algo muito poderoso em personagens que tentam acertar apesar das próprias limitações.


1. Dê à personagem materna uma vida própria além da maternidade

Mães não surgem no mundo apenas no momento em que têm filhos. Elas possuem passado, personalidade, desejos, frustrações, opiniões, experiências e sonhos anteriores à maternidade — e tudo isso influencia diretamente a forma como elas se relacionam com os outros.

Uma figura materna bem construída parece alguém que continua existindo mesmo quando o protagonista sai de cena.

O leitor quer sentir que aquela mulher teve uma vida antes da narrativa começar e continuará tendo pensamentos, conflitos e vontades próprias enquanto a história acontece.

Em Orgulho e Preconceito, por exemplo, a Sra. Bennet é exagerada, ansiosa e muitas vezes cômica, mas suas atitudes fazem sentido dentro da realidade social em que vive. Ela parece desesperada porque entende perfeitamente o que pode acontecer com suas filhas caso não consigam estabilidade através do casamento. Existe humanidade, medo e intenção por trás de seus exageros.

Ela não é perfeita, mas também não é vazia.


2. Permita falhas sem transformar a mãe da história em uma caricatura tóxica

Uma das maiores dificuldades ao escrever personagens femininas complexas é encontrar equilíbrio entre força e vulnerabilidade.

Muitas vezes, quando autores tentam evitar a mãe idealizada, acabam criando figuras emocionalmente agressivas como atalho para profundidade. Mas sofrimento causado aos outros não é sinônimo automático de complexidade narrativa.

Mães interessantes podem ser rígidas, impacientes, orgulhosas, controladoras ou emocionalmente fechadas em alguns momentos sem necessariamente serem abusivas.

Elas podem errar e ainda assim continuar sendo porto seguro. Podem amar e falhar ao mesmo tempo, e talvez seja isso que torne certas personagens maternas tão inesquecíveis: elas parecem pessoas tentando fazer o melhor que conseguem — não símbolos prontos de bondade ou crueldade.

Em Anne de Green Gables, Marilla Cuthbert começa como uma mulher rígida, prática e pouco afetiva. Mas aos poucos vemos pequenas demonstrações de cuidado, aprendizado emocional e transformação. Sua relação com Anne cresce justamente porque existe evolução, não perfeição.


3. Explore diferentes formas de maternidade na ficção

Nem toda figura materna precisa ser biológica.

Mães adotivas, avós, madrinhas, irmãs mais velhas, cuidadoras e mentoras também podem ocupar esse espaço afetivo dentro da narrativa. Porque a maternidade (literária ou real) não se resume apenas a vínculo sanguíneo. Ela também pode nascer do cuidado, da presença e da escolha.

Esse tipo de relação costuma gerar personagens extremamente marcantes porque trabalha o pertencimento emocional.

Em Harry Potter, por exemplo, Molly Weasley se torna uma figura materna muito mais presente para Harry do que sua própria família biológica jamais foi. Ela acolhe, protege, corrige e ama de forma genuína, construindo uma relação que impacta tanto o personagem quanto o leitor, e isso funciona justamente porque existe reciprocidade emocional real entre eles.


4. Use pequenas cenas para construir profundidade emocional

Nem sempre grandes discursos são responsáveis pelos vínculos mais fortes de uma história.

Às vezes, o que torna uma personagem materna memorável está nos pequenos gestos: uma roupa dobrada em silêncio, um bilhete deixado na mesa, uma bronca carregada de preocupação, uma receita repetida durante anos, um cuidado quase automático.

São esses detalhes que fazem relações parecerem vividas.

Mães emocionalmente interessantes costumam demonstrar afeto não apenas através de palavras, mas também através de presença, rotina, memória e pequenas ações cotidianas.

Em Mulherzinhas, Marmee demonstra carinho muito mais através da presença, da escuta e da paciência cotidiana do que de grandes declarações emocionais ou gestos expressivos. Os sentimentos permanecem e se tornam perceptíveis mesmo quando quase não são verbalizados.


5. Mostre que relações familiares saudáveis também podem gerar conflito

Existe uma ideia muito comum de que histórias interessantes dependem necessariamente de relações familiares completamente destrutivas.

Mas relações amorosas, funcionais e respeitosas também geram tensão narrativa.

Conflitos não surgem apenas da violência emocional. Eles também aparecem em diferenças de visão, excesso de proteção, expectativas, medo de perda, dificuldade de comunicação e inseguranças afetivas.

Uma mãe pode amar profundamente o filho e ainda assim errar com ele. Pode querer proteger demais. Pode não compreender certas escolhas. Pode sentir culpa, cansaço e frustração. Tudo isso sem deixar de amá-lo e de fazer o seu melhor.

Em Extraordinário, a mãe de Auggie tenta constantemente equilibrar cuidado, exaustão emocional e atenção entre os filhos. Ela não funciona como uma “supermãe perfeita”, mas como alguém tentando sustentar emocionalmente a própria família enquanto também enfrenta seus próprios limites, e isso a torna muito mais humana.


6. Dê agência e individualidade para mães na narrativa

Uma personagem materna não deveria existir apenas para apoiar o arco emocional do protagonista.

Ela precisa ter opiniões próprias, desejos, conflitos pessoais, limites, escolhas, e espaço narrativo. Quando a mãe da história vive exclusivamente em função do protagonista, ela deixa de parecer pessoa e passa a parecer recurso de roteiro.

Em Tudo em Todo Lugar ao Mesmo Tempo, Evelyn Wang é mãe, mas também é uma mulher sobrecarregada, frustrada, confusa e cheia de conflitos pessoais. A maternidade faz parte dela, mas não é sua única identidade. Ela sustenta os outros, mas não deixa de existir como indivíduo, e isso faz diferença.


7. Deixe que ela erre, aprenda e cresça junto com os filhos

Talvez uma das formas mais humanas de construir uma mãe complexa seja permitir que ela evolua emocionalmente ao longo da narrativa.

Mães podem pedir desculpas. Podem mudar de ideia. Podem reconhecer falhas. Podem amadurecer junto com os filhos.

Aliás, relações familiares costumam se tornar muito mais interessantes quando existe crescimento mútuo.

Em Gilmore Girls, Lorelai erra constantemente, toma decisões impulsivas e nem sempre sabe lidar da melhor maneira com certas situações. Mas sua relação com Rory funciona porque existe diálogo, tentativa, escuta e reconstrução contínua.

Não é perfeição que cria vínculo emocional forte na ficção, mas a honestidade.


Escrever mães complexas é também escrever humanidade

Criar boas figuras maternas na literatura é, no fundo, escrever sobre pessoas inteiras.

Mulheres que sentem medo, culpa, raiva, afeto, exaustão, desejo, insegurança e amor ao mesmo tempo. Pessoas que podem falhar profundamente em alguns momentos e ainda assim continuarem sendo importantes, acolhedoras e emocionalmente presentes.

Talvez o problema não esteja apenas na existência de mães tóxicas na ficção — porque elas também existem na vida real e podem render histórias extremamente importantes — mas na ideia de que esse é o único caminho possível para criar complexidade.

Não é.

Mães amorosas também podem ser contraditórias. Podem carregar traumas, conflitos internos, limitações emocionais e dificuldades reais sem se tornarem personagens rasas ou idealizadas, e talvez justamente por isso elas tenham tanto potencial de marcar leitores de forma duradoura.



Qual personagem materna realmente te marcou na literatura, no cinema ou nas séries e por quê? Me conta aqui nos comentários!

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2 Comentários

  1. Amei sua postagem. Falar sobre mães sem torná-las personagens problemáticas não deve ser algo fácil mesmo. Se eu sendo mãe me cobro fazendo o que devo fazer, imagina a dificuldade em retratá-las.

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    1. É muito complicado, principalmente quando queremos criar uma mãe totalmente diferente de nossa realidade e dar a profundidade necessária (alguém com uma mãe ruim precisando criar uma mãe boa, ou o contrário). Mas com o tempo e a prática, vamos melhorando. Muito obrigada pelo seu comentário <3

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