Olá, escritores.
Como vão?
Hoje, apesar de o dia dos namorados já ter passado há um bom tempo, vamos colocar um pouco de romance aqui no blog e falar sobre a construção de casais (os ships, tão famosos especialmente no mundo das fanfics).
Especialmente quando se trata de fanfics, é complicado decidir sobre que casal escrever, uma vez que costuma haver brigas dentro do fandom sobre qual ship é melhor e alguns nem leem histórias com certos ships. Porém, ao contrário do que muitos dizem, não existe essa história de casal melhor ou pior, muito menos uma fórmula para criar um casal perfeito. O lance é os envolvidos no romance terem a famosa química.
Então vamos lá aprender como isso funciona.
Introdução: O que realmente faz um casal funcionar na ficção (e fora dela)
Quando falamos de construir casais na escrita (seja em fanfic, seja em original) o debate quase sempre desanda para duas perguntas erradas: “qual é o ship certo?” e “qual é o ship melhor?”. A própria lógica já nasce torta.
Não existe casal “certo” ou “errado” em termos absolutos: existe casal coerente ou incoerente com a história, com o tom, com os personagens e, principalmente, com o tipo de relação que você quer explorar.
A palavra-chave aqui não é “perfeição”, é química. Dois personagens podem ser completamente improváveis no papel e, ainda assim, formar um casal extremamente interessante se a dinâmica entre eles tiver sentido, se houver atrito, cumplicidade, conflito, apoio, contraste ou qualquer combinação disso que gere faísca narrativa.
Ao mesmo tempo, um casal “óbvio” pode ficar sem graça se tudo o que fazem é repetir clichês sem nenhuma nuance.
Também é essencial lembrar de algo bem simples, mas que muita gente atropela: você, autor(a), precisa gostar do casal que está construindo. Se o romance existe apenas porque o fandom pede, porque “dá engajamento” ou porque “todo mundo escreve casais assim”, ou sobre determinado casal (no meio das fanfics), a chance de virar uma relação morna, mecânica e sem vida é enorme.
A história também não precisa ser romântica para ter casais, e o casal não precisa ser protagonista para existir: relacionamentos também podem funcionar como camada de tensão, risco, alívio, crescimento ou complicação no enredo.
O objetivo deste post é justamente esse: tirar o romance do modo automático e trazer alguns critérios práticos para pensar a construção de casais com mais intenção, seja em fanfics ou em histórias originais.
De onde vem a palavra ship:
Antes de falar de casais, vale entender a palavra que governa metade das tretas de fandom: ship. Ela vem de relationship (relacionamento, em inglês). Um relationshipper é alguém que se interessa por um casal de personagens específicos de determinada história, seja ela de um livro, filme, série etc.
No início, o termo era usado para designar pessoas fãs de relacionamentos em certo programa de TV, mas com o tempo se expandiu para filmes, livros, quadrinhos, fanfics e praticamente qualquer mídia que envolva personagens em interação. Você é um shipper se apoia o relacionamento entre dois personagens: ou seja, se você “shipa” o casal.
Dentro desse universo, dá para separar algumas categorias que ajudam a entender como os leitores se posicionam:
Um “conventional couple” (casal convencional) é o par estabelecido na história original. Ou seja, já existe insinuação ou mesmo o romance propriamente dito entre os dois. É o casal que o texto canônico legitima de alguma forma, seja com beijos, seja com tensão, seja com aquele empurrãozinho sem vergonha nenhum disfarçado.
Já um “unconventional couple” (casal não convencional) surge quando o par não apresenta nenhuma ligação amorosa na história (às vezes, eles mal se conhecem), mas, mesmo assim, você acharia ótimo se eles ficassem juntos. Aqui, o leitor está muito mais projetando possibilidades do que apenas acompanhando o que está no texto.
Também existe o termo friendshipper, usado quando o fã apoia a amizade entre dois (ou um grupo de) personagens. Nem todo vínculo intenso precisa virar romance, e é perfeitamente possível achar um relacionamento poderoso justamente porque ele permanece no campo da amizade.
Entender esses termos não é só cultura de fandom: ajuda a perceber que, quando você escreve um casal em um fandom, está entrando numa conversa maior com leitores que já carregam expectativas, preferências e alergias específicas.
Dicas para construir casais em fanfics e originais: da intenção à dinâmica
A parte prática começa aqui. Em vez de procurar a fórmula do “casal perfeito”, é mais útil pensar em critérios que tornam um casal interessante, coerente e minimamente saudável (quando essa é a sua intenção, claro; desde que você não incentive casais tóxicos).
Vamos aos pontos centrais.
Primeiro, não escreva apenas pensando nos leitores. Quando você escreve pensando só em quem vai ler, sua história fica sem emoção, como se fosse escrita apenas por obrigação. Fica com cara de “produto feito sob encomenda”, não de narrativa viva.
Pense nos casais que você gosta de ver também, nos tipos de dinâmica que te interessam, nas tensões que você quer explorar. Inclusive, se você não se sente à vontade escrevendo romance, não escreva. Tão simples quanto parece. Forçar um relacionamento porque “tem que ter” geralmente enfraquece tanto a trama quanto os personagens.
O casal também não precisa seguir os padrões da história original, no caso das fanfics. Você pode explorar universos alternativos, versões diferentes de personagens, cronologias divergentes, rearranjos de relações. Siga suas ideias. Mas, claro, avise aos leitores: nem todo mundo gosta de universo alternativo, ou de personagens fora de sua personalidade canônica. Transparência em aviso de ship e de abordagem evita surpresas desagradáveis e tretas desnecessárias.
Ainda sobre fanfics, nada impede você de criar um personagem original para juntar com alguém já existente. Só que aqui mora uma armadilha clássica: a Mary Sue (ou Gary Stu, na versão masculina). Ou seja, aquele personagem perfeito, sem defeitos reais, amado por todos, que existe mais como projeção idealizada do autor do que como pessoa ficcional. Se for criar um par original, tome cuidado para construir alguém com personalidade própria, defeitos, qualidades, contradições e objetivos que vão além de “namorar o protagonista”. Se o personagem só existe para ser desejado, ele não é personagem, é adereço.
Triângulos amorosos também merecem atenção. Por ser um recurso muito usado (e abusado), é interessante abordar a temática de forma que não pareça apenas reciclagem. Em vez de montar um triângulo só para criar drama barato, vale se perguntar: o que esse triângulo diz sobre cada personagem? Que conflitos internos ele expõe? Que escolhas ele força? Quem a pessoa é quando está com A e quando está com B? Se o triângulo existe apenas para manter dois lados de fandom brigando, a chance de ficar vazio é grande.
Outra cilada é o famigerado “um milhão de pessoas apaixonadas por uma só”. Sim, todo mundo conhece alguém muito popular, mas dentro da ficção isso rapidamente perde a graça e vira ruído. Quando metade do elenco está romanticamente interessado em uma única figura, normalmente o problema não é a popularidade do personagem, é a dificuldade do autor em diversificar relações.
Em vez de transformar o protagonista em ímã universal de desejo, é mais interessante construir diferentes tipos de vínculo: amizade, rivalidade, parceria, mentorias, conflitos familiares. Equilíbrio é a palavra.
Ritmo, verossimilhança e química: como fazer o romance respirar
Um dos erros mais comuns na construção de casais é confundir intensidade com velocidade. Cuidado para não fazer os personagens envolvidos no romance se apaixonarem rápido demais sem que haja mínima sustentação. Na vida real, por mais que existam paixões à primeira vista, os relacionamentos se constroem com tempo: primeiro os personagens se conhecem, depois criam laços, se expõem, erram, testam limites, até, eventualmente, ficarem juntos ou não. Isso é meio clichê, mas é a fórmula básica de qualquer vínculo emocional.
Sabendo disso, você pode brincar com a estrutura: criar formas diferentes para eles se conhecerem, colocar o primeiro contato em uma situação inusitada, usar um conflito inicial que depois se transforma em cumplicidade, explorar desencontros, reconciliações, segredos. Você pode tanto assumir um clichê quanto subvertê-lo, desde que tenha clara a função dessa trajetória para a história.
Clichês em si não são o problema. O que pesa é quando são usados no piloto automático. Um clichê bem escrito, com nuance, timing e cuidado de linguagem, pode se tornar um enredo maravilhoso. Um “conceito original” mal executado continua sendo um desastre, só que excêntrico. A pergunta não é “isso já foi feito?”, e sim “por que isso está aqui, nessa história, com esses personagens, desse jeito?”.
Outro ponto essencial: o casal não existe apenas para que um salve o outro o tempo todo. O mais interessante é quando a relação mostra o quanto os dois somam e contribuem um na vida do outro. Isso vale tanto para histórias com romances saudáveis quanto para aquelas que exploram relações problemáticas – com a diferença de que, no segundo caso, a crítica precisa estar ali em algum nível, nem que seja pela forma como o texto mostra consequências.
Quando a intenção é construir um relacionamento saudável, importa mostrar parceria concreta: desde sair para jantar num lugar que os dois gostam até planejar juntos como livrar o mundo do jugo do vilão mais poderoso. Quando a intenção é expor um relacionamento tóxico, importa mostrar como certas atitudes prejudicam, limitam e machucam, sem glamourizar isso como “prova de amor”. Em ambos os casos, a pergunta é: o que esse casal revela sobre quem essas pessoas são?
Conclusão: Casais são ferramentas narrativas, não enfeites
No fim das contas, construir casais não é sobre agradar o fandom, cumprir cota de romance ou colecionar ships como figurinhas. É usar relações amorosas como ferramentas narrativas para aprofundar personagens, tensionar escolhas, mudar trajetórias, revelar vulnerabilidades e, às vezes, oferecer respiro no meio do caos.
Um bom casal ficcional não existe só porque “tem que ter romance”; não é perfeito, mas faz sentido dentro da história; e não substitui personalidade por química, mas constrói química a partir de personalidades coerentes.
Quando você se lembra de que casais são desdobramentos da narrativa (não um mundo paralelo desconectado dela), fica muito mais fácil decidir quem combina com quem, que dinâmica explorar e até quando faz sentido manter ou desfazer um casal.
Se, ao final, esses personagens transformarem um ao outro de forma crível e interessante, o casal cumpriu seu papel.
Agora me conta: como você costuma construir seus casais?
Você escolhe primeiro o casal e depois monta a história ao redor, ou deixa a relação nascer conforme escreve? Já brigou com o próprio fandom por gostar de um casal “não convencional”? Ou já abandonou um no meio do caminho porque percebeu que ele não fazia mais sentido?
Deixa nos comentários suas experiências, surtos, ships improváveis e até os fracassos românticos literários.
Se for do interesse, até posso fazer um próximo post só destrinchando exemplos de dinâmicas de casal (saudáveis, tóxicas, improváveis, confortáveis) em histórias conhecidas.
Até mais :*
2 Comentários
Obrigada pelas dicas! Sempre quis escrever um livro, mas ainda acho muito grandioso escrever um universo inteiro sozinho. Então estou começando fazendo fanfics com personagens que gosto!
ResponderExcluirÉ um caminho mais que válido. Espero que consiga escrever um livro do 0 algum dia. Não precisa fazer algo grandioso, pode começar com histórias mais curtas, contos e noveletas. Depois vai aumentando aos poucos :D
ExcluirE desculpa a demora, o Blogger não me notificou dos comentários aguardando moderação D:
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