Olá, escritores.
Esse é mais um dos posts antigos reformulados para atingir
um público mais amplo. Aos poucos, vamos seguindo nossa grande missão de
revisitar textos antigos e transformar tudo aquilo que ainda vale a pena em
conteúdos mais úteis, organizados e interessantes para quem escreve hoje — seja
em plataformas gratuitas, livros independentes ou projetos autorais em geral.
E hoje vamos falar sobre uma das partes mais temidas da
escrita: a sinopse.
Escrever a história já é difícil, mas resumir essa história
de maneira interessante sem parecer genérico, entregar spoilers ou deixar o
leitor completamente perdido… bom, aí a conversa muda de figura.
Muita gente trava nessa etapa. Às vezes por insegurança, às
vezes por não saber exatamente o que colocar, e às vezes simplesmente porque
depois de terminar um texto inteiro ninguém mais tem forças mentais para olhar
para ele e resumir tudo em poucos parágrafos. O que, sinceramente, é
compreensível.
Mas aqui vai a boa notícia: apesar de existir bastante
subjetividade no que funciona ou não em uma sinopse, existem alguns princípios
que ajudam muito a construir algo mais chamativo e eficiente.
Uma boa sinopse normalmente precisa:
- apresentar o conflito principal;
- situar o leitor dentro da proposta da história;
- despertar curiosidade; e
- criar expectativa sem entregar respostas demais.
Parece complicado quando resumimos assim, eu sei. Mas fica
bem mais simples quando começamos a observar como isso funciona na prática.
Fuja de sinopses genéricas
Esse talvez seja um dos erros mais comuns.
Vamos supor que o tema principal da sua história seja amor e
você resolva escrever algo extremamente filosófico e abstrato sobre isso. Algo
como:
“O amor é a força que nos compele a buscar construir uma versão melhor de nós mesmos, tudo suporta, tudo perdoa. O que você faria por amor?”
Pode funcionar para leitores que gostam de algo mais poético
e contemplativo? Pode. Mas, se for literatura de ficção, o leitor se conecta
muito mais facilmente com personagens, situações e conflitos concretos.
Quando a sinopse fica vaga demais, ela não cria mistério, e
sim distância.
O leitor precisa entender minimamente:
- quem são os personagens envolvidos nessa história;
- sobre o que ela é; e
- qual tipo de conflito ele encontrará ali.
Não significa entregar o enredo inteiro, claro, apenas dar
ao leitor algo em que ele consiga se agarrar emocionalmente.
Longe de ser uma sinopse perfeita, vou usar como exemplo a
de “Sobre Nós Dois”, romance medieval que escrevi para um desafio de drabbles
do finado Nyah! (hoje Plus Fiction):
“Aurora e Lachlan eram de mundos distintos, proibidos um para o outro, mas ousaram ignorar as convenções e quebrar as regras. Por quantos obstáculos um amor pode passar sem esmorecer?”
Aqui, mesmo curta e sem grandes revelações, já sabemos:
- quem são os personagens;
- qual é o conflito principal; e
- qual atmosfera emocional esperar da história.
Existe romance proibido, tensão e promessa de dificuldades
futuras. O leitor consegue visualizar uma narrativa ali dentro, e isso costuma
funcionar muito melhor do que frases bonitas que poderiam pertencer a
praticamente qualquer história (até à não-ficção)
Observe sinopses de livros do mesmo gênero que o seu
Quando a dúvida bate muito forte, observar exemplos ajuda
bastante. Não para copiar outros autores, mas para estudar a estrutura e
verificar como uma sinopse é feita, sobretudo dentro das particularidades do
seu gênero.
Procure livros do mesmo gênero que o seu e observe:
- como as informações são organizadas;
- quanto é revelado;
- quais emoções a sinopse tenta despertar; e
- qual tipo de promessa narrativa ela faz ao leitor.
Romances costumam destacar a dinâmica emocional dos
personagens e dos relacionamentos entre eles. Suspenses trabalham dúvida e
perigo. Fantasias frequentemente apresentam conflito, ambientação e sensação de
grandiosidade. Cada gênero possui tendências próprias.
Isso não é restrito aos livros: filmes, séries, jogos e até
sinopses de streaming podem ajudar você a entender como diferentes histórias
apresentam seus conflitos de forma rápida e interessante.
Com o tempo, você começa a perceber padrões e quais deles
combinam mais com seu estilo.
O que normalmente uma boa sinopse precisa ter
Embora não exista fórmula absoluta, a maioria das sinopses
mais eficientes costuma trabalhar alguns elementos básicos:
- personagens centrais;
- objetivo ou problema principal;
- conflito inicial; e
- um fechamento capaz de despertar curiosidade.
O leitor precisa entender minimamente sobre quem é a
história, o que está acontecendo e por que aquilo importa.
Para deixar isso mais claro, vou usar outro exemplo próprio,
dessa vez do suspense sobrenatural “Sussurros do Submundo”:
“Juntos na investigação de mais um assassinato, Andrei Walsh e Felicia Armistead tinham tudo para crer que o caso se resolveria facilmente: havia apenas um suspeito, com inúmeros indícios apontando seu envolvimento.
Mas quando sua filha de quatro anos passa a ser o centro de eventos esquisitos na noite de Halloween, Felicia percebe que não chegariam às respostas assim tão facilmente. O submundo tinha uma história para contar e ela deveria parar para ouvir.”
Aqui temos os personagens, o objetivo deles, o conflito
principal e um gancho. A sinopse não explica tudo. Mas apresenta os pontos
fundamentais: direção, atmosfera e tensão narrativa.
Você pode seguir o padrão ou quebrá-lo completamente
Embora exista uma estrutura bastante comum para escrever
sinopses, ela não funciona para todos os estilos de narrativa.
Histórias muito curtas, por exemplo, quando postadas em
plataformas online e necessitando de uma sinopse, às vezes funcionam melhor com
um trecho impactante do próprio texto do que com um resumo tradicional.
Foi o que fiz em “Temporal”, microconto que funciona como
sequência de “Sobre Nós Dois”:
“Lá fora, o mundo desaba em uma chuva forte e implacável. Posso ouvi-la golpeando o telhado com seus punhos prateados, criando com o uivo do vento uma aura de pesadelo.
A despeito disso, aqui dentro há paz.”
Como a narrativa possui pouco mais de 370 palavras, uma
sinopse tradicional provavelmente entregaria informações demais sobre o enredo.
Nesses casos, atmosfera pode funcionar melhor do que uma
explicação.
Então, como sempre, conhecer as estruturas mais comuns é
importante, mas entender quando quebrá-las também faz parte do processo.
Cuidado com o tamanho da sinopse
Esse é outro ponto importante — embora eu não ache que você
deva se preocupar com ele logo no primeiro rascunho.
Assim como acontece na escrita da história, tentar controlar
quantidade de palavras, perfeição ou repetição cedo demais costuma bloquear
mais do que ajudar. Uma dica de escrita que nunca fica velha e é incrivelmente
precisa e verdadeira é: primeiro escreva, depois refine.
Dito isso, o tamanho da sinopse influencia bastante a
experiência do leitor. Sinopses curtas demais podem não explicar praticamente
nada. Sinopses longas demais correm o risco de entregar excesso de informação,
parecer cansativas ou repetitivas, perder impacto, ou transformar toda a
narrativa em resumo.
Pessoalmente, gosto de trabalhar entre 100 e 150 palavras na
maioria dos casos. Passou muito disso, normalmente começo a cortar. A chance de
ficar repetitivo ou contar demais é bem grande.
O que realmente precisa entrar em uma sinopse?
A função da sinopse não é contar sua história inteira,
apenas apresentar a proposta da narrativa e despertar curiosidade suficiente
para que alguém queira continuar.
Então tente focar apenas no essencial, como vimos:
- conflito principal,
- personagens importantes,
- atmosfera,
- e promessa narrativa.
Informações muito técnicas, descrições excessivas ou
explicações longas sobre o universo costumam funcionar melhor dentro da própria
história do que na apresentação dela.
Muita gente esquece do detalhe que sempre pode alterar a
sinopse depois e trava porque pensa que precisa encontrar a versão perfeita
logo de primeira, quando na verdade sinopses costumam mudar várias vezes ao
longo do processo criativo (principalmente se você prefere planejamentos
flexíveis e ir descobrindo alguns aspectos da história enquanto escreve).
Inclusive em poemas, antologias e textos muito curtos, se
você está postando em plataformas online, algum tipo de apresentação ainda
ajuda bastante. Às vezes bastam dois versos fortes ou um pequeno trecho que
represente o tom emocional da obra. Deixar completamente em branco normalmente
não é a melhor ideia.
É melhor escrever a sinopse antes ou depois da história?
Essa pergunta aparece muito mais do que parece e a resposta
continua sendo o clássico “depende”.
Eu, antes, deixava para escrever a sinopse quando tinha uma
versão mais consolidada do enredo, porque já conseguia perceber melhor o que
realmente importava para o que enredo, o que podia ser revelado e qual era o
coração da narrativa.
Hoje, faço uma versão inicial antes de escrever — às vezes,
antes até de começar a planejar, apenas para ter uma noção geral do que devo
colocar — e depois, quando a história já está bem adiantada, ou até finalizada,
vou revisar para ver se precisa ajustar. Muita gente faz o mesmo.
No fim, nenhum método é universal. O importante é entender o
que funciona melhor para o seu processo e o seu jeito de trabalhar.
Na prática: teste diferentes versões
Talvez uma das melhores formas de aprender a escrever
sinopses interessantes seja experimentar formatos diferentes. Você pode pegar
uma sinopse sua e testar reescrevê-la de diferentes formas, para ver qual fica
melhor para sua obra. Experimente:
- mudar o foco,
- alterar a estrutura,
- trocar explicação por atmosfera,
- reduzir drasticamente o texto.
Mesmo quando uma versão não funciona, ela ajuda você a
entender melhor o que sua história realmente quer transmitir, e isso, por si
só, já vale bastante.
Espero que estejam gostando dessa série de reformulações dos
posts antigos.
Nos lemos novamente no próximo. 💜

2 Comentários
Fenomenal! Finalmente um post sucinto sobre criação de sinopses nessa nossa internet~
ResponderExcluirAmei todas as dicas, especialmente a questão de uma estrutura pra sinopse. Eu pessoalmente não tenho mais gosto com sinopses abstratas demais; se não me disser do que se trata o enredo, eu nem leio. Esse post tem que viralizar, as pessoas precisam descobrir sobre essa fórmula~
Meus parabéns pelo post, Michele!
Muito obrigada <3 Espero que o post seja útil a tantas pessoas quanto possível porque também não aguento mais essas sinopses que não dizem nada da história hahaha
ExcluirE desculpa a demora, o Blogger não me notificou dos comentários aguardando moderação D:
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