Olá, pessoal. Como estão? Espero que bem.
Se você é escritor, já sabe: começar uma história é uma das partes mais difíceis da escrita.
Não porque seja tecnicamente mais complexa do que desenvolver personagens, criar conflitos ou escrever um final satisfatório, mas porque as primeiras linhas carregam uma responsabilidade enorme: convencer o leitor a continuar.
É ali que ele decide se vai virar a próxima página, seguir para o próximo capítulo ou fechar o livro e procurar outra coisa para ler.
Sem pressão, né?
Por isso mesmo muita gente entra em parafuso quando chega ao primeiro capítulo.
Como começar uma história?
O que precisa aparecer logo nas primeiras páginas?
O que é melhor evitar?
Antes de qualquer coisa, um aviso importante: não existe fórmula mágica.
Como quase tudo na escrita, não existe um método universal em que você faz A e B e, inevitavelmente, obtém C.
O melhor começo para uma história depende de vários fatores: gênero, proposta narrativa, estilo do autor, tipo de experiência que você quer proporcionar, expectativas que deseja criar e até do ritmo da obra.
O que podemos fazer é observar padrões que costumam funcionar e entender por que eles funcionam.
A partir daí, você decide quais deles servem para a sua história.
E sim, escritores experientes conseguem transformar praticamente qualquer regra em exceção. Mas, se você ainda está construindo repertório ou sente dificuldade para escrever primeiras páginas envolventes, talvez seja mais seguro começar pelos caminhos que costumam funcionar melhor.
Então pegue seu caderno, abra o documento da sua história e vamos conversar sobre algumas formas de construir um início capaz de despertar a curiosidade do leitor.
5. Evite começar com longas descrições
Um dos erros mais comuns em primeiros capítulos é abrir a narrativa com páginas e mais páginas descrevendo personagens ou cenários.
O problema é simples: o leitor ainda não está emocionalmente envolvido. Ele ainda não sabe quem é aquele personagem, não entende qual é o conflito nem conhece o mundo da história.
Por isso, dificilmente estará interessado em descobrir a cor exata dos olhos do protagonista, quantas colunas existem no salão principal ou qual o tom específico da tinta usada nas paredes da casa.
Antes de qualquer descrição, o leitor costuma querer entender o que está acontecendo, quem são as pessoas envolvidas e por que ele deveria se importar. Uma descrição só ganha força quando já existe contexto emocional.
A casa da personagem passa a ser interessante quando sabemos quem mora nela. O castelo passa a ser fascinante quando entendemos sua importância para a trama.
Se a história começa apenas descrevendo elementos estáticos, existe um risco grande de o leitor não encontrar motivos suficientes para continuar.
E digo isso com propriedade porque já cometi exatamente esse erro. Durante muito tempo achei uma ótima ideia começar histórias explicando como era a casa da personagem. Hoje percebo que a maioria das pessoas provavelmente queria muito mais saber quem era aquela personagem e qual problema gigantesco estava prestes a cair sobre sua cabeça.
4. Cuidado ao começar falando sobre o clima
Existe uma brincadeira recorrente entre escritores mais antigos: se você não sabe como começar uma história, faça chover.
O problema é que, muitas vezes, isso não resolve nada. Na verdade, costuma apenas trocar uma descrição de cenário por outra.
A menos que o clima tenha importância imediata para a narrativa, provavelmente ele não é a informação mais interessante para abrir a história. O leitor quer descobrir quem está envolvido, o que está acontecendo e qual conflito está surgindo (sim, eu vou repetir até entrar na sua cabeça).
Não necessariamente se o céu está nublado, quantos graus faz lá fora ou se a protagonista corre risco de destruir a chapinha ao sair de casa.
Claro que existem exceções.
Se a tempestade desencadeia o conflito principal, tudo muda, mas, na maioria dos casos, o clima funciona melhor como elemento complementar do que como foco inicial.
E sim, eu também já comecei histórias descrevendo chuva. Mais de uma vez (e não me orgulho disso).
3. Não despeje toda a história passada do personagem logo no início
Outro erro muito comum, principalmente na fantasia, é acreditar que o leitor precisa conhecer toda a vida do protagonista (ou a construção do mundo) antes de acompanhar a história.
Mas, geralmente, ele quer saber algo muito mais simples: quem essa pessoa é agora?
O passado é importante. Traumas importam. Primeiros amores, amizades antigas, relações familiares e experiências marcantes podem enriquecer muito uma narrativa. Mas dificilmente tudo isso precisa aparecer nos primeiros parágrafos.
Na maior parte dos casos, o leitor está interessado na situação atual e quer acompanhar o momento em que a história realmente começa. Flashbacks podem ser excelentes ferramentas narrativas, mas costumam funcionar melhor quando surgem no momento certo.
Inclusive, distribuir informações sobre o passado ao longo da narrativa costuma gerar mais curiosidade do que revelar tudo de uma vez. Quando dosamos essas informações criamos mistério, estimulamos hipóteses e permitimos que o leitor descubra o personagem gradualmente.
O resultado costuma ser muito mais envolvente.
2. Comece com algo acontecendo
Parece um conselho óbvio, mas você se surpreenderia com a quantidade de histórias que começam sem que nada realmente aconteça.
Uma das maneiras mais eficientes de capturar atenção é apresentar algum movimento logo nas primeiras linhas. Isso não significa começar obrigatoriamente com explosões, perseguições ou batalhas.
Ação não é sinônimo de adrenalina. Significa mudança, indica que algo está acontecendo naquele momento.
Vamos usar um exemplo simples. imagine duas versões da mesma cena.
Na primeira:
Chovia muito forte quando João chegou à portaria do prédio. Nervoso, ele pensou que não chegaria em casa a tempo de assistir ao seu programa preferido.
Funciona?
Até funciona, mas é relativamente passiva.
Agora veja esta versão:
Faltava apenas trinta minutos. Ele jamais chegaria a tempo.
Em condições normais, já levaria mais de quarenta minutos para percorrer o caminho até sua casa graças ao trânsito. Mas ainda estava preso no prédio da repartição.
Uma queda de energia o obrigara a descer mais de dez andares de escada e ele estava cansado, ofegante e furioso.
De repente temos urgência, emoção, contexto e conflito.
E, principalmente, perguntas.
O que aconteceu?
Por que ele está tão desesperado?
Por que chegar em casa é tão importante?
Essas perguntas nos levam ao tópico mais importante desta lista.
1. Plante perguntas na mente do leitor
Curiosidade é uma das forças mais poderosas da narrativa.
Quanto mais o leitor quiser descobrir o que vem a seguir, maiores as chances de ele continuar lendo. Por isso, uma das funções mais importantes do início de uma história é criar perguntas.
Não necessariamente grandes mistérios. Às vezes, perguntas simples já funcionam. Quem é essa pessoa? O que ela quer? Por que isso é importante? O que pode dar errado? Como ela vai resolver esse problema?
Voltando ao exemplo do João, perceba a diferença: quando revelamos tudo imediatamente, o leitor não precisa participar, mas quando mostramos apenas parte das informações, ele começa a formular hipóteses. E se tem uma coisa que leitor ama fazer é formular hipóteses.
Eles gostam de juntar pistas. De tentar prever acontecimentos. Gostam de sentir que estão participando da construção da história.
Criar perguntas não significa esconder informações importantes ou confundir o público. Você só vai entregar informações suficientes para despertar interesse e deixar espaço para a imaginação trabalhar.
Bônus: Depois de prender o leitor, mantenha a promessa
Existe uma última armadilha que vale mencionar: conseguir escrever um primeiro capítulo excelente é maravilhoso, mas ele cria uma responsabilidade.
Se o início promete mistério, a narrativa precisa desenvolver esse mistério.
Se promete aventura, precisa entregar aventura.
Se promete emoção, precisa sustentar essa emoção.
Nada é mais frustrante para um leitor do que começar uma história fantástica e sentir que ela perde força logo depois.
Por isso, revise, releia, peça opiniões, converse com leitores beta, pesquise, aprenda e continue aprimorando não apenas o primeiro capítulo, mas a história inteira.
Um bom começo abre portas, mas é a qualidade do restante da narrativa que faz o leitor permanecer até o fim.
E você?
Qual é a maior dificuldade que encontra ao escrever o início de uma história?
É apresentar personagens?
Criar conflito?
Prender a atenção do leitor?
Ou simplesmente descobrir qual cena merece abrir a narrativa?
Me conta nos comentários. Vou adorar conhecer suas experiências, e quem sabe trocar algumas ideias sobre primeiros capítulos também.

3 Comentários
Adorei o post! Foi super útil, e você escreve super bem :)
ResponderExcluirMDS, precisava desse post há alguns anos, talvez não passasse tanta vergonha. Tens toda a razão. Sobre o item 4: Não aprendi nada com a Meyer. D:
ResponderExcluirAmei o post! Me deu ótimas dicas e agora vou ficar mais atenta. Estava mesmo precisando dele! :)
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